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Currículo jurídico em inglês: como montar um legal CV que abre estágio

Currículo jurídico em inglês: como montar um legal CV que abre estágio

Uma aluna me mandou o currículo dela em inglês pedindo uma olhada antes de enviar para um programa de verão. Estava tudo lá: a faculdade, o estágio, o intercâmbio. E, na primeira linha da experiência, ela tinha escrito trainee responsible for helping in the legal department. Traduzido ao pé da letra do "estagiário responsável por auxiliar no departamento jurídico". Não estava errado em gramática. Estava errado em tudo o resto.

Currículo jurídico em inglês não é o seu currículo brasileiro passado no tradutor. Ele segue outras convenções, usa outro tipo de verbo, organiza as seções em outra ordem e espera um tom que o modelo brasileiro não tem. Quem manda a versão traduzida no automático perde a vaga antes de qualquer entrevista, e quase nunca fica sabendo o motivo. Vou te mostrar como montar um que funciona.

por que o currículo é a primeira peneira

Numa vaga disputada de estágio internacional, programa de verão ou banca com trabalho estrangeiro, o recrutador raramente lê tudo na primeira passada. Ele bate o olho. Procura sinais rápidos de que a pessoa sabe do que está falando. Um currículo que soa traduzido levanta uma bandeira logo de cara, porque sugere que o inglês da pessoa também vai travar no contrato, no e-mail e na reunião.

É injusto? Um pouco. Mas faz sentido do lado de quem contrata. Se o trabalho é em inglês todo dia, o currículo é a primeira amostra de como você escreve nessa língua. Um documento limpo, com o vocabulário certo e o tom profissional, diz "essa pessoa se vira" antes mesmo de você abrir a boca. Já falei sobre como o inglês jurídico decide a vaga num estágio de banca internacional, e o currículo é onde essa disputa começa, muito antes da entrevista.

O currículo jurídico em inglês tem uma estrutura razoavelmente fixa. Vou percorrer seção por seção, com o nome em inglês que você vai usar como cabeçalho.

Header. No topo, seu nome, cidade, telefone com código do país e e-mail. Nada de foto, nada de RG, nada de estado civil ou data de nascimento. Esses dados são padrão no Brasil e causam estranheza lá fora, onde entram em questões de discriminação. Se você tem LinkedIn organizado em inglês, o link entra aqui.

Education. No currículo jurídico, a formação vem primeiro, porque você ainda é estudante e é o seu ativo principal. Nome da faculdade, o grau que você está cursando e a previsão de conclusão. "Faculdade de Direito da USP" vira University of São Paulo, School of Law. O bacharelado em Direito é Bachelor of Laws, abreviado como LL.B. Se você está no meio do curso, escreve expected graduation: December 2027 ou LL.B. candidate.

Experience. Aqui entram estágios, monitorias, iniciação científica, qualquer atividade jurídica. Cada entrada tem o nome da organização, o seu cargo, as datas e, abaixo, duas ou três linhas descrevendo o que você fez. É nessas linhas que a maioria dos currículos naufraga, e já já eu chego lá.

Skills. Idiomas com o nível honesto, ferramentas que você domina, certificações. Aqui você declara o seu inglês, e convém ser preciso: English (advanced), Portuguese (native), Spanish (intermediate).

Additional / Activities. Prêmios, publicações, participação em liga acadêmica, moot court, trabalho voluntário. O que sobrar de relevante e não coube acima.

Bachelor of Laws → bacharelado em Direito (a graduação; abrevia-se LL.B.) I am an LL.B. candidate expected to graduate in 2027. — Sou graduando em Direito, com previsão de formatura em 2027.

verbos de ação no passado: onde o currículo ganha vida

Essa é a diferença que mais salta aos olhos entre um currículo brasileiro traduzido e um legal CV de verdade. No Brasil, a gente descreve o cargo: "estagiário responsável por". Em inglês, você descreve o que fez, começando cada linha com um verbo de ação no passado.

Compare. A versão traduzida fica trainee responsible for legal research and document review. A versão nativa fica researched case law and reviewed contracts under attorney supervision. A segunda é mais curta, mais concreta e soa como quem trabalhou de verdade. O verbo no passado faz o trabalho.

Guarde esta lista, porque ela cobre quase tudo o que um estagiário de Direito faz:

  • drafted → redigi, elaborei (uma minuta, um parecer, um e-mail)
  • reviewed → revisei (contratos, documentos)
  • researched → pesquisei (jurisprudência, doutrina, legislação)
  • analyzed → analisei (casos, cláusulas)
  • assisted → auxiliei (a equipe, um sócio)
  • prepared → preparei (traduções, resumos, memorandos)
  • summarized → resumi (decisões, contratos longos)
  • translated → traduzi (trechos, documentos)
  • attended → participei de (reuniões, audiências), cuidado, attend é comparecer, não atender

Repare que cada uma dessas linhas responde à pergunta "o que você entregou", não "qual era o seu cargo". O recrutador já sabe que você era estagiário pelo título da vaga. O que ele quer saber é o que passou pelas suas mãos.

to draft → redigir, elaborar (uma minuta ou documento) I drafted memos and reviewed employment agreements. — Redigi memorandos e revisei contratos de trabalho.

Uma ressalva honesta aqui, porque odeio currículo inflado: use o verbo que descreve o que você realmente fez. Se você só leu contratos e resumiu, escreva reviewed and summarized, não negotiated nem drafted from scratch. Recrutador de banca fareja exagero, e a entrevista desmonta a mentira em trinta segundos. Verbo forte e verdadeiro vale mais do que verbo pomposo e furado.

como verter faculdade, OAB e estágio sem inventar

Aqui mora a parte que trava todo mundo, porque são termos brasileiros que não têm correspondente exato. Vou pelos principais.

Faculdade de Direito. É Law School ou School of Law. A instituição inteira, a graduação, vira Bachelor of Laws (LL.B.). Não escreva College of Law nem Law College, que soa estranho. E cuidado com "faculdade" no sentido de instituição: no inglês americano, faculty quer dizer o corpo docente, os professores, não o prédio nem o curso.

Estágio. É internship. O estagiário é intern ou legal intern. Aquele trainee que aparece em toda tradução automática existe, mas costuma designar programa de trainee de empresa, não o estágio de graduação. Para o seu caso, legal intern é o termo limpo.

OAB. Esse pega muita gente. A Ordem dos Advogados do Brasil, quando precisa ser explicada, vira the Brazilian Bar Association. O exame da Ordem é o Brazilian Bar Examination. Se você passou, pode escrever passed the Brazilian Bar Examination. Se ainda não fez, não force o assunto. E não escreva que você é attorney ou lawyer habilitado se ainda é estudante: você é law student ou, com charme, soon-to-be lawyer. Usar o título de advogado antes da hora é o tipo de erro que fecha porta. Falo mais sobre essas palavras em advogado em inglês: lawyer, attorney, solicitor e counsel.

Iniciação científica e monitoria. Undergraduate research para iniciação científica. Monitoria vira teaching assistant ou TA. Liga acadêmica pode ser descrita como student legal association com uma linha explicando o que ela faz, porque o conceito não existe igual lá fora.

Brazilian Bar Examination → Exame da OAB (a prova de habilitação para advogar no Brasil) I am preparing to take the Brazilian Bar Examination in 2027. — Estou me preparando para prestar o Exame da OAB em 2027.

os erros que denunciam um currículo traduzido

Já revisei currículos suficientes para saber onde eles quebram. Anote os mais comuns.

O primeiro é o falso cognato solto. Actual não é atual, é real, verdadeiro. Graduation nos Estados Unidos é a cerimônia de formatura, não o curso de graduação. Faculty são os professores. Pretend é fingir, não pretender. Um desses no meio do currículo e o recrutador já desconfia do resto. Reuni os piores em 20 falsos cognatos que derrubam estudante de Direito, e vários aparecem justamente em currículo.

O segundo é o excesso de texto. Currículo brasileiro adora frase longa, cheia de "responsável por" e "atuação em". O legal CV é enxuto. Bullet de uma linha, verbo na frente, sem enrolação. Se a linha não começa com um verbo de ação, reescreva.

O terceiro é o dado pessoal a mais. Foto, idade, estado civil, número de documento. Tudo isso sai. É padrão no Brasil e problemático lá fora.

O quarto é a data no formato errado. O Brasil escreve dia/mês/ano. Os Estados Unidos escrevem mês/dia/ano, e isso confunde. O jeito mais seguro é escrever o mês por extenso: March 2026, sem risco de leitura trocada.

O quinto, e talvez o mais silencioso, é o inglês que está tecnicamente certo mas soa artificial. I have experience in the elaboration of contracts é a tradução literal de "tenho experiência na elaboração de contratos", e nenhum falante nativo escreveria assim. O natural é drafted contracts. Esse tipo de deslize não aparece no corretor ortográfico. Só quem estudou inglês jurídico de verdade percebe.

Pegue o seu currículo em inglês, se você já tem um, e faça um teste. Marque cada linha da seção de experiência. Ela começa com um verbo de ação no passado? Se qualquer linha começar com "responsible for", "trainee" ou o nome do seu cargo, reescreva começando pelo verbo. Faça isso com todas antes de enviar para qualquer vaga.

por que isso é a porta de estágios e vagas disputadas

Quero fechar com o ponto que costuma passar despercebido. O currículo jurídico em inglês não é um detalhe burocrático que você resolve na véspera de uma candidatura. Ele é a chave que abre, ou tranca, as portas que mais interessam na graduação.

Pense nas vagas que valem a pena disputar: estágio em banca com cliente estrangeiro, programa de verão em escritório internacional, intercâmbio com estágio embutido, jurídico de multinacional. Todas elas, sem exceção, começam com uma triagem de currículo em inglês. E a maioria dos candidatos brasileiros chega nessa triagem com o documento traduzido no automático, cheio dos erros que listei acima. Isso quer dizer que quem monta um currículo limpo, com os verbos certos e o vocabulário preciso, já larga na frente de boa parte da concorrência antes de a disputa começar de fato.

É uma das poucas coisas que você controla por inteiro. A prova de seleção você não controla, a sorte na entrevista você não controla, mas o currículo você constrói com calma, revisa quantas vezes quiser e entrega no ponto. Deixar essa peça mal feita é abrir mão de uma vantagem que estava ao seu alcance.

E tem um efeito que se acumula. O primeiro estágio bom puxa o segundo, que puxa a carta de recomendação, que puxa o programa internacional. A porta de entrada de toda essa sequência costuma ser um pedaço de papel de uma página, escrito na língua que você ainda está aprendendo a usar profissionalmente. Vale caprichar nele.

por onde começar

Se você vai montar o seu agora, comece pela seção de experiência e reescreva cada linha começando por um verbo de ação no passado. Depois arrume o Education com o LL.B. e a previsão de formatura, tire os dados pessoais que sobram e revise os falsos cognatos. Só isso já coloca o seu currículo à frente da maioria.

Agora, o currículo é a ponta de um vocabulário maior. Para escrever drafted contracts com segurança, você precisa saber o que tem dentro de um contrato em inglês, e é aí que a base de inglês jurídico entra. Se você quer construir esse repertório de forma organizada, do vocabulário do dia a dia até o texto profissional que abre vaga, é para isso que a plataforma da Criar Direito existe. Dá para conhecer o curso quando fizer sentido para o seu momento.

Um currículo bem feito não garante a vaga. Mas um currículo mal feito garante que você nem chega perto dela. Comece pela peça que você controla.

Inglês jurídico deixou de ser diferencial. Virou linha de corte.

A plataforma da Criar Direito leva você do zero ao vocabulário que escritórios e editais de intercâmbio exigem — com a Profa. Andressa.

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