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Vocabulário Jurídico

Petição em inglês: por que pleading, brief, motion e complaint não são a mesma coisa

Petição em inglês: por que pleading, brief, motion e complaint não são a mesma coisa

A pergunta chega quase sempre do mesmo jeito: "professora, como se diz petição em inglês?". E a resposta honesta decepciona no primeiro segundo, porque não existe uma palavra só. Se você jogar "petição" num tradutor, ele vai cuspir petition, e na maioria das vezes vai estar errado para o que você queria dizer. A palavra que traduz a nossa "petição" muda conforme a peça, o momento do processo e o que ela pede. É um dos casos em que traduzir palavra por palavra atrapalha mais do que ajuda.

O motivo por trás disso não é o inglês ser complicado. É que o processo de common law reparte em várias peças, com nomes diferentes, o que o nosso processo às vezes junta sob o guarda-chuva "petição". Entender essa divisão resolve a confusão de uma vez, e é o que eu quero fazer aqui: mostrar o que cada palavra é de verdade, com o momento do processo em que ela aparece.

por que "petição" não tem tradução única

No Brasil, a gente chama de petição quase todo requerimento escrito dirigido ao juiz. Petição inicial, petição intermediária, petição de recurso: o nome "petição" cobre um monte de coisa que se diferencia mais pelo adjetivo do que pelo substantivo. É um termo elástico.

No common law, cada uma dessas peças ganhou um nome próprio ao longo dos séculos, e esses nomes não são intercambiáveis. Uma peça que abre o processo, uma que pede algo pontual ao juiz no meio do caminho e uma que argumenta o mérito para um tribunal são três coisas com três palavras distintas. Isso tem tudo a ver com a lógica que separa os dois sistemas, um assunto que vale conhecer por trás em common law e civil law, porque a forma do processo acompanha a forma do sistema.

Então, em vez de procurar "a" tradução de petição, o caminho é aprender cada peça pelo que ela faz. Vamos uma a uma.

complaint: a peça que abre o processo

Quando um processo civil começa nos Estados Unidos, a peça que o inicia costuma se chamar complaint. É o documento em que o autor (o plaintiff) apresenta os fatos e diz o que quer do réu (o defendant). Do ponto de vista de função, é o que mais se aproxima da nossa petição inicial.

complaint → petição inicial (peça que abre o processo civil, com os fatos e os pedidos) The plaintiff filed a complaint against the company. — O autor ajuizou a petição inicial contra a empresa.

Cuidado com o falso amigo aqui, porque complaint no inglês do dia a dia é "reclamação", "queixa". No processo, ela é a peça inicial. E repare no verbo que anda com ela: to file, que é "protocolar", "ajuizar". Você não "entra" com a complaint, você a files. Esse tipo de armadilha, em que a palavra comum tem um sentido técnico diferente, é o pão de cada dia do inglês jurídico, e eu reuni os piores casos em falsos cognatos do inglês jurídico.

motion: o pedido pontual no meio do caminho

Durante o processo, as partes precisam pedir coisas ao juiz o tempo todo. Adiar um prazo, excluir uma prova, encerrar o caso antecipadamente. Cada um desses pedidos é uma motion.

motion → petição de requerimento (pedido pontual ao juiz dentro do processo) The defendant filed a motion to dismiss the case. — O réu apresentou requerimento para extinguir o processo.

A motion é o que a gente chamaria de petição intermediária, aquele requerimento avulso que não abre nem encerra o processo, mas resolve um ponto no meio dele. Você vai ver expressões fixas: motion to dismiss (pedido para extinguir o processo), motion for summary judgment (pedido de julgamento antecipado), motion to compel (pedido para forçar a outra parte a apresentar algo). Guardar o padrão "motion to + verbo" já te faz entender dezenas dessas de primeira.

Um teste rápido: leia estas três em voz alta e diga o que cada uma pede, sem traduzir tudo. Motion to dismiss. Motion for extension of time. Motion to strike. Se você sacou que a primeira quer encerrar, a segunda quer mais prazo e a terceira quer retirar algo dos autos, você já pegou a lógica da motion.

brief: onde mora o argumento

Aqui está a peça que mais confunde, porque a palavra parece dizer o contrário do que ela é. Brief, no inglês comum, é "breve", "curto". No processo, o brief é a peça de argumentação, e ela costuma ser tudo menos breve. É onde o advogado desenvolve o raciocínio jurídico, cita os precedentes e tenta convencer o tribunal.

brief → peça de argumentação jurídica (razões, memorial) The lawyer submitted a 40-page brief to the appellate court. — O advogado apresentou um memorial de 40 páginas ao tribunal de recurso.

O brief aparece muito no recurso, o appeal. As partes trocam briefs para sustentar suas razões diante do tribunal, e é a peça em que o inglês jurídico fica mais denso, cheio de citação de caso e de raciocínio por analogia. Se um dia você for revisar uma peça dessas, é aqui que a leitura pesa. E é aqui, também, que a diferença de sistema mais aparece, porque um brief de common law argumenta a partir de casos anteriores, não a partir do texto da lei.

pleading e petition: os termos que dão nome ao conjunto

Faltam dois termos, e eles operam num nível diferente dos outros três.

Pleading é o nome genérico das peças que as partes trocam para formar a lide, principalmente no começo do processo. A complaint do autor é uma pleading; a resposta do réu, a answer, é outra. Quando alguém fala em the pleadings, está se referindo a esse conjunto de peças iniciais que delimitam o que se discute.

pleading → peça processual (o conjunto das peças que formam a lide) Both pleadings were filed within the deadline. — As duas peças processuais foram protocoladas no prazo.

E a petition, aquela tradução que o tradutor automático te empurra? Ela existe, mas é mais específica do que parece. Serve para tipos de pedido próprios, em geral quando alguém requer que um tribunal ou uma autoridade conceda algo: uma petition for divorce, uma petition for bankruptcy, uma petition for review diante de uma corte superior. Ou seja, petition é uma peça de pedido em certos contextos, não o nome geral de qualquer requerimento. Chamar toda petição brasileira de petition é justamente o erro que este texto quer evitar.

e a resposta do réu?

Falta olhar o outro lado, porque petição não é só coisa de quem ataca. Depois que a complaint chega, o réu responde, e essa resposta tem nome próprio: answer. Nela, o réu confirma ou nega cada ponto e apresenta suas defesas.

answer → contestação (resposta do réu à petição inicial) The defendant has 21 days to file an answer. — O réu tem 21 dias para apresentar a contestação.

Junto da answer pode vir uma counterclaim, que é a reconvenção, quando o réu não só se defende como também formula um pedido próprio contra o autor. E note como isso fecha a lógica das pleadings: complaint e answer são as duas peças que, juntas, delimitam o que vai ser discutido no processo. Reconhecer esse par te dá o esqueleto da fase inicial de qualquer processo civil de common law, e evita o erro de achar que "petição" cobre só a peça de quem inicia.

a lógica que amarra tudo

Se você reparar, os cinco termos não competem pela mesma vaga. Eles se distribuem pelo processo. A complaint abre. As motions resolvem pontos no meio. Os briefs argumentam o mérito, sobretudo em recurso. Pleading é o nome do conjunto das peças iniciais. Petition é o pedido em contextos específicos. Não é que o inglês tenha cinco palavras para uma coisa; é que ele nomeia cinco coisas que o nosso vocabulário às vezes chama pelo mesmo nome.

Foi só quando entendi isso que parei de procurar "a tradução de petição" e comecei a perguntar outra coisa: que peça é essa, e o que ela faz no processo? Com essa pergunta na cabeça, o vocabulário se organiza sozinho.

por que isso pesa no trabalho internacional de verdade

Talvez você esteja pensando que essa distinção é preciosismo, coisa de quem gosta de detalhe. Só que no trabalho internacional ela deixa de ser detalhe rápido. Se você atua num caso que envolve um tribunal estrangeiro, ou revisa um documento de um escritório de fora, ou conversa com um advogado de common law sobre o andamento de um processo, usar a palavra certa é o que faz você ser entendido e levado a sério.

Imagine dizer que vai apresentar uma petition quando o que você quer é protocolar uma motion no meio do processo. O interlocutor estrangeiro vai entender outra coisa, ou vai desconfiar de que você não conhece o procedimento dele. O mesmo vale para ler: se um cliente escreve que "the other side filed a motion to dismiss", você precisa saber, na hora, que ele está dizendo que a outra parte pediu a extinção do caso, e o que isso significa para o prazo. O trabalho internacional cobra essa precisão não como enfeite, mas porque o processo anda em cima dessas palavras.

Aqui vai a minha ressalva sincera: os nomes que usei aqui seguem sobretudo o processo dos Estados Unidos, e mesmo lá há variação entre a justiça federal e a de cada estado. Na Inglaterra, parte desse vocabulário mudou com uma reforma processual, e certos termos antigos deram lugar a outros. Então trate este texto como um mapa para se orientar e não travar, não como um gabarito válido para todo tribunal de língua inglesa. O importante é você parar de traduzir "petição" no automático e passar a perguntar que peça é aquela.

por onde começar

Se esse assunto te pegou de surpresa, é sinal de que o vocabulário de processo em inglês ainda é terreno novo, e tudo bem. Ele não costuma aparecer no inglês da escola nem nas primeiras aulas da faculdade. Vale firmar a base antes de encarar peças inteiras, e o caminho para isso está em legal English do zero.

E se você quer um percurso que já organiza esse vocabulário na ordem certa, ligando cada peça ao momento do processo em que ela aparece, é para isso que a plataforma da Criar Direito existe. Dá para conhecer o curso e ver se é o seu momento.

No fim, a resposta para "como se diz petição em inglês" continua sendo a mesma: depende da peça. Mas agora ela não é mais uma decepção. É um convite a olhar o processo de outro jeito, peça por peça, com o nome que cada uma carrega de verdade.

Inglês jurídico deixou de ser diferencial. Virou linha de corte.

A plataforma da Criar Direito leva você do zero ao vocabulário que escritórios e editais de intercâmbio exigem — com a Profa. Andressa.

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