Conhecer o curso
Intercâmbio e Editais

Moot courts internacionais: o que são e por que são um trampolim

Moot courts internacionais: o que são e por que são um trampolim

Tem um tipo de estudante que sai da graduação com o currículo já parecido com o de advogado experiente, e quase sempre por trás dele existe uma competição de julgamento simulado. Eu vi isso de perto. Colegas que participaram do Jessup ou do Vis chegaram nas entrevistas de emprego com uma bagagem que o resto da turma não tinha, e não era só o nome bonito no papel. Era o jeito de argumentar, de ler um problema jurídico, de sustentar uma tese em inglês sem gaguejar.

Se você nunca ouviu falar em moot court, ou ouviu e achou que era coisa de gente muito acima do seu nível, este texto é para você. Vou explicar o que essas competições são, que inglês jurídico elas cobram e por que valem tanto na carreira de quem começa cedo. E vou ser honesta sobre o preço que se paga, porque ele é real.

o que é um moot court, sem mistério

Moot court é uma competição de julgamento simulado. Uma organização divulga um caso fictício, geralmente cheio de camadas, e monta um tribunal de mentira com regras de verdade. As equipes de estudantes recebem o mesmo problema e precisam defender os dois lados: às vezes o autor, às vezes o réu, dependendo do sorteio da rodada.

A competição tem duas partes. Primeiro, você escreve as peças, chamadas de memoriais, um para cada lado. Depois, você sustenta oralmente diante de uma banca de juízes, que interrompe, pergunta e testa se você domina mesmo o que escreveu. Os melhores memoriais e as melhores sustentações avançam de fase.

Nos moots internacionais, tudo isso acontece em inglês. O caso vem em inglês, os memoriais são escritos em inglês jurídico, e a sustentação oral é em inglês, muitas vezes diante de juízes de vários países que julgam centenas de times. É competição séria, com anos de tradição, e times do mundo inteiro se preparam por meses.

os dois nomes que você precisa conhecer

Dois moots dominam a conversa quando o assunto é Direito Internacional, e vale saber a diferença entre eles.

O Jessup, nome completo Philip C. Jessup International Law Moot Court Competition, é o maior do mundo. Trabalha com Direito Internacional Público: disputas entre Estados, levadas a uma versão simulada da Corte Internacional de Justiça. Se o que te atrai são direitos humanos, direito dos tratados, conflitos entre países, o Jessup é o seu terreno. O Brasil tem uma fase nacional que classifica times para a rodada internacional.

O Vis, ou Willem C. Vis International Commercial Arbitration Moot, roda em torno de arbitragem comercial internacional e compra e venda de mercadorias entre empresas de países diferentes. A final acontece em Viena, todo ano, na semana anterior à Páscoa. Se o seu interesse puxa para contratos, arbitragem e Direito Comercial, o Vis é onde você quer estar. Existe uma versão irmã em Hong Kong, o Vis East.

Há muitos outros, sobre direitos humanos, direito penal internacional, propriedade intelectual. Mas se você entende como Jessup e Vis funcionam, entende a lógica de quase todos.

Vale saber que a maioria tem uma versão em português também, para quem está começando, e essas servem de aquecimento. Só que o salto de valor, o que impressiona recrutador e abre porta lá fora, está nas edições internacionais em inglês. É onde você compete com times de dezenas de países e sai com um repertório que ninguém tira de você. Por isso, se o inglês jurídico já estiver de pé, vale mirar direto no internacional em vez de ficar só nas simulações nacionais.

o inglês jurídico que um moot cobra de verdade

Aqui está a parte que a maioria subestima. Moot não pede inglês de conversa. Pede inglês jurídico de produção, escrito e falado, sob pressão. São dois músculos bem diferentes.

O primeiro é o memorial, a peça escrita. Você constrói um argumento jurídico longo, com estrutura formal, citando tratados, casos e doutrina, no registro técnico que os avaliadores esperam. Não dá para escrever "the other party did wrong". Você escreve que a parte breached its obligations under Article 35, que a conduta constitutes a fundamental breach, que o remédio cabível é avoidance of the contract. É vocabulário preciso, e o avaliador desconta cada imprecisão.

brief → memorial, peça escrita (o documento com o argumento jurídico da parte) Each team submits two written briefs before the oral rounds. — Cada equipe entrega dois memoriais escritos antes das rodadas orais.

O segundo músculo é a sustentação oral, a oral argument. Você fala diante da banca por alguns minutos, e a qualquer momento um juiz corta com uma pergunta. Aqui não basta ter decorado. Você precisa responder na hora, em inglês, mantendo o raciocínio, e voltar para a linha do seu argumento sem se perder. É a habilidade que mais impressiona recrutador depois, porque quem aguenta a pressão de uma banca em inglês aguenta uma reunião com cliente estrangeiro.

oral argument → sustentação oral (a defesa falada da tese perante a banca) The judges interrupted her oral argument with tough questions. — Os juízes interromperam a sustentação oral dela com perguntas difíceis.

Repare que os dois exigem coisas opostas do idioma. O memorial cobra precisão e revisão, você tem tempo. A sustentação cobra reação e fluidez, você não tem tempo nenhum. Um estudante pode ser bom num e travar no outro. Treinar os dois é o que faz o time crescer.

por que isso vira um trampolim de carreira

Agora o ponto que justifica o esforço, e é o ângulo deste texto: o moot constrói uma vantagem que vai se acumulando ao longo da graduação, ano após ano, muito antes de você se formar. Não é um enfeite que você pendura no currículo e esquece. É treino de músculo profissional.

Pensa no que você faz num moot. Lê um problema jurídico denso e separa o que importa. Pesquisa em fontes internacionais, em inglês, antes de virem traduzidas. Escreve uma peça técnica que outra pessoa vai avaliar linha por linha. Defende uma tese oralmente contra alguém que quer te derrubar. Trabalha em equipe sob prazo. Essas são exatamente as tarefas de um advogado de banca internacional ou de arbitragem, só que você as pratica aos vinte anos, num ambiente que perdoa o erro.

Por isso o nome de um moot no currículo abre porta. O recrutador de uma banca que atende cliente estrangeiro sabe o que aquilo significou de horas e de idioma. Escrevi sobre como o inglês jurídico decide essas vagas em estágio em banca internacional, e o moot é uma das formas mais fortes de chegar pronto nesse tipo de seleção.

E tem o efeito composto. O inglês jurídico que você constrói no primeiro moot fica com você. A pesquisa que você aprende a fazer serve para o próximo trabalho, para o TCC, para o intercâmbio. Se o assunto de estudar fora te interessa, o moot conversa direto com o intercâmbio na graduação, porque as duas coisas puxam o mesmo tipo de inglês e se reforçam.

como um estudante brasileiro se envolve

O caminho mais comum é pela sua própria faculdade. Muitas universidades brasileiras têm times de Jessup ou de Vis, com processo seletivo interno, normalmente uma vez por ano. Procure o núcleo de práticas jurídicas, os professores de Direito Internacional, ou os alunos que já competiram. A informação circula mais no boca a boca do que em edital.

Se a sua faculdade não tem time, nem tudo está perdido. Algumas competições aceitam inscrição direta, e há moots menores e nacionais que servem de treino antes de encarar o Jessup ou o Vis. Vale começar por um desses para pegar a lógica sem a pressão do palco maior.

Um ponto prático que engana muita gente: você não precisa ser o melhor orador da turma para entrar num time. Times precisam de gente que escreve bem os memoriais, de gente que pesquisa fundo, de gente que organiza. A sustentação oral é uma função dentro do time, não a única. Se o seu forte é a escrita, há lugar para você.

O que não dá para contornar é a pesquisa em inglês. Todo o material de base de um moot está em inglês, e você vai passar semanas lendo tratados, decisões e artigos nessa língua. Se pesquisar em fonte estrangeira ainda te intimida, comece por pesquisa jurídica em inglês antes de encarar um caso inteiro de moot.

Um teste honesto de prontidão: procure na internet o problem de uma edição passada do Vis ou do Jessup, todos ficam abertos, e leia as três primeiras páginas dos fatos do caso. Se você acompanha a história e entende quem fez o quê contra quem, você tem base para começar. Se cada parágrafo te derruba no vocabulário, esse é o sinal de por onde começar antes de se candidatar a um time.

a ressalva que ninguém te dá antes

Moot é intenso, e eu seria desonesta se pintasse só o lado bonito. São meses de dedicação, muitas vezes noites e fins de semana, em cima dos trabalhos normais da faculdade. Colegas meus praticamente sumiram do resto da vida acadêmica na reta final antes de Viena. Não é um curso extracurricular leve. É quase um segundo semestre por dentro do semestre.

Então, se você está com o inglês jurídico ainda muito no começo, travando na primeira linha de um texto, entrar num time de Jessup agora pode ser frustração em vez de aprendizado. Você vai gastar toda a energia decifrando palavra e sobra pouca para o argumento, que é o que a competição avalia. Nesse caso, o passo mais inteligente é firmar a base do inglês jurídico primeiro e mirar o moot no ano seguinte, quando o idioma não for mais o obstáculo.

E há quem simplesmente não goste de competição, de palco, de julgamento. Tudo bem. Moot é um caminho poderoso, não o único. Intercâmbio, estágio internacional, pesquisa, cada um constrói vantagem de um jeito. O moot só concentra muita coisa boa num pacote só.

por onde dar o primeiro passo

Se moot te interessa, faça duas coisas. Descubra se a sua faculdade tem time e quando é a seleção. E leia um problema antigo para sentir na pele o nível de inglês jurídico que a coisa exige, sem romantizar.

Porque no fim é sempre o mesmo divisor de águas. O estudante brilhante que trava no inglês jurídico não avança num moot, por mais que saiba de Direito. Se você quer construir essa base de forma organizada, ler e escrever no registro técnico com segurança e chegar pronto para uma competição ou para uma banca internacional, é para isso que a plataforma da Criar Direito foi feita. Dá para conhecer o curso quando quiser.

A vantagem que um moot constrói não aparece de uma vez. Ela se acumula, semana após semana, e no dia da entrevista já virou parte de quem você é.

Inglês jurídico deixou de ser diferencial. Virou linha de corte.

A plataforma da Criar Direito leva você do zero ao vocabulário que escritórios e editais de intercâmbio exigem — com a Profa. Andressa.

Conhecer o curso