Conhecer o curso
Vocabulário Jurídico

Força maior em inglês: force majeure, act of God e o que a cláusula cobre

Força maior em inglês: force majeure, act of God e o que a cláusula cobre

Poucas cláusulas saíram do anonimato tão rápido quanto a de força maior. Durante anos ela dormiu no fim dos contratos, no meio do bloco de cláusulas que quase ninguém lia com atenção. Aí veio uma pandemia, o mundo parou, e de repente todo advogado do planeta estava relendo aquele parágrafo para saber se o cliente podia deixar de cumprir o contrato sem responder por isso. Se você vai ler ou redigir contrato em inglês, essa é uma das cláusulas que você precisa entender de verdade.

Vou te levar pela lógica dela e pelo vocabulário que vem junto. Um aviso honesto antes: força maior é um daqueles temas em que a tradução do português para o inglês esconde diferenças reais entre os sistemas, então não basta decorar a palavra. Precisa entender o que ela faz.

a palavra que o inglês tomou emprestada do francês

O termo mais comum é force majeure, e ele nem é inglês. Veio do francês e entrou no vocabulário jurídico anglófono do jeito que está, sem tradução. Você vê a expressão escrita em itálico às vezes, justamente por ser estrangeira, mas ela é padrão em contratos internacionais.

force majeure → força maior (evento extraordinário que impede o cumprimento do contrato) The pandemic was treated as a force majeure event under the contract. — A pandemia foi tratada como evento de força maior no contrato.

A ideia central é simples. Uma força maior é um acontecimento fora do controle das partes, que não dá para prever nem evitar, e que impede alguém de cumprir o que prometeu. Quando ela ocorre, a parte impedida deixa de responder pelo descumprimento, dentro dos limites que o contrato definir.

act of God: o irmão mais antigo

Você também vai encontrar act of God. A tradução literal seria "ato de Deus", e ela assusta o estudante que nunca viu. Não tem nada de religioso no sentido técnico. Act of God é o evento da natureza, sem participação humana, que ninguém poderia evitar: um terremoto, uma enchente, um furacão.

act of God → caso fortuito da natureza (evento natural inevitável, sem ação humana) The flood qualified as an act of God, excusing the delay. — A enchente se enquadrou como caso fortuito, justificando o atraso.

A diferença para force majeure é de amplitude. Act of God cobre só os eventos da natureza. Force majeure é mais larga: além dos desastres naturais, costuma abranger guerra, greve, embargo, ato de governo, e o que mais o contrato listar. Por isso a maioria dos contratos modernos usa uma cláusula de force majeure com uma lista, e trata act of God como um dos itens dessa lista.

como a cláusula é montada

Uma boa cláusula de força maior em inglês costuma ter três partes, e reconhecê-las ajuda a ler qualquer uma delas.

Primeiro, a definição do que conta como força maior, quase sempre com uma lista de exemplos aberta por uma expressão como including but not limited to (incluindo, sem limitação). Depois, o efeito: o que acontece quando o evento ocorre, em geral a suspensão das obrigações enquanto durar o impedimento. Por fim, os deveres da parte afetada, como avisar a outra em certo prazo e tentar reduzir os danos.

including but not limited to → incluindo, sem limitação (abre uma lista de exemplos não exaustiva) Force majeure includes, but is not limited to, war, flood, and epidemic. — Força maior inclui, sem limitação, guerra, enchente e epidemia.

Esse último ponto surpreende quem está começando. Força maior não é um passe livre. A parte afetada normalmente precisa notificar a outra e agir para diminuir o estrago. Se ela simplesmente cruza os braços, pode perder a proteção da cláusula. Isso liga a força maior a um dever de comunicação que aparece em quase todo contrato, algo que você reconhece se já viu como funciona a cláusula de rescisão em inglês, que também depende de aviso.

hardship: o parente que muita gente confunde

Existe um vizinho da força maior que vale distinguir: hardship. Força maior é quando o cumprimento se torna impossível. Hardship é quando ele continua possível, mas ficou tão mais oneroso que manter o contrato como está seria injusto. São coisas diferentes, com remédios diferentes.

hardship → onerosidade excessiva (o cumprimento ficou possível, porém desproporcionalmente custoso) The supplier invoked hardship to renegotiate the price. — O fornecedor invocou a onerosidade excessiva para renegociar o preço.

Um contrato bem redigido separa as duas situações. A força maior suspende ou encerra a obrigação. A cláusula de hardship, quando existe, abre espaço para renegociar. Confundir uma com a outra numa análise é o tipo de erro que um supervisor de estágio nota, porque muda completamente o que o cliente pode fazer.

Um teste rápido: se um evento torna o cumprimento impossível, você pensa em força maior. Se apenas o torna muito mais caro, você pensa em hardship. Guarde essa pergunta ("impossível ou só mais caro?") e metade das dúvidas sobre a cláusula se resolve sozinha.

o que NÃO é força maior

Tão importante quanto saber o que a cláusula cobre é saber o que ela não cobre, porque é aí que a maioria das brigas acontece. Força maior não serve para escapar de um mau negócio. Se o evento era previsível, se a parte podia ter se preparado, ou se o problema é só que o cumprimento ficou mais caro, a cláusula em regra não se aplica.

O exemplo clássico é a dificuldade financeira. Uma empresa que quebra e não consegue pagar não está em força maior, ainda que o aperto seja real. A insolvência é um risco normal do negócio, não um evento extraordinário e inevitável. O mesmo vale para uma alta de preços de insumo: mais caro não é impossível.

foreseeable → previsível (evento previsível costuma ficar fora da força maior) A foreseeable strike may not count as force majeure. — Uma greve previsível pode não contar como força maior.

Por isso os tribunais anglófonos leem essas cláusulas com rigor. Eles perguntam se o evento estava mesmo fora do controle da parte, se era imprevisível de verdade, e se realmente impediu o cumprimento, e não apenas o dificultou. Um estudante que entende essa leitura restritiva já sai na frente, porque a intuição de quem começa é sempre esticar a cláusula mais do que ela permite. Saber onde ela termina é tão útil quanto saber onde começa.

por que ler isso no original faz diferença

Aqui está o ponto que a pandemia deixou claro para todo mundo. Quando o mundo parou, a discussão sobre o que contava como força maior aconteceu primeiro em inglês, nos contratos internacionais, na imprensa jurídica de fora, nas primeiras decisões. Quem lia no original acompanhou o debate enquanto ele se formava. Quem dependia de tradução leu a versão resumida, semanas depois, quando as melhores conclusões já tinham sido tiradas.

Não é sobre uma emergência específica. É sobre um padrão que se repete: as grandes questões contratuais do mundo globalizado se discutem em inglês antes de chegarem aqui. Ler a cláusula no idioma dela, entender a diferença entre force majeure, act of God e hardship, coloca você na conversa em tempo real, e não na plateia. Para um estudante que pensa em atuar com contratos internacionais, essa é uma vantagem concreta.

por onde começar

Se essa cláusula ainda parece difícil, comece pela leitura. Procure uma cláusula de força maior num contrato em inglês, há muitas disponíveis, e identifique as três partes que vimos: definição, efeito, deveres. Depois compare com uma cláusula brasileira e repare no que muda. É esse contato com o texto real que faz o vocabulário grudar.

E se você quer construir esse repertório de forma organizada, sem catar cláusula solta pela internet, é para isso que a plataforma da Criar Direito existe, do vocabulário básico até a leitura de contrato inteiro. Dá para conhecer o curso quando fizer sentido para você.

Força maior deixou de ser aquela cláusula esquecida no fim do contrato. Virou uma das mais lidas do mundo. Entendê-la em inglês, com as distinções que o português não faz de forma tão clara, é o tipo de conhecimento que separa quem lê o contrato de quem só acha que leu.

Inglês jurídico deixou de ser diferencial. Virou linha de corte.

A plataforma da Criar Direito leva você do zero ao vocabulário que escritórios e editais de intercâmbio exigem — com a Profa. Andressa.

Conhecer o curso